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Domingo, 13 de outubro de 2002

Escondida, casa bandeirista ameaça ruir
Tombado em 1982, imóvel é uma preciosidade arquitetônica erguida no século 18; maioria das paredes de taipa está pela metade e teto já não existe
Eduardo Nicolau/AE
Casarão fica atrás de árvores de um estacionamento na Faria Lima: desde os anos 80, reforma do imóvel já foi anunciada várias vezes
MARCOS DE MOURA E SOUZA

Da rua, não se vê quase nada. Mas atrás do mato e das árvores que ocupam parte do estacionamento de uma das avenidas mais movimentadas de São Paulo estão os últimos vestígios de um histórico casarão de taipa, erguido, possivelmente, em meados do século 18. É uma das poucas construções de estilo bandeirista que ainda resistem na cidade. Considerada uma preciosidade arquitetônica, a casa - ou o que sobrou dela - está agora bem perto de ruir. A maioria das paredes já está pela metade. Não há mais telhado. "Se continuar assim, (as paredes) duram apenas poucos anos ", adverte a arquiteta Helena Saia, autora de um detalhado projeto de restauro já aprovado e nunca adotado.

Tombado em 1982, o casarão - em plena Avenida Brigadeiro Faria Lima - foi abandonado. Na época do tombamento, ainda estava conservado. Seu proprietário, a Bela Vista S.A. - empresa que pertenceu ao megainvestidor Naji Nahas e hoje é controlada pela RMC Finance Investiments S.A, com sede em Portugal -, chegou a ser acionado pela Prefeitura para que mantivesse a casa. A empresa nunca cumpriu sua obrigação e o caso vem se arrastando.

No mês passado, porém, o Ministério Público Estadual (MPE) anunciou o que pode ser uma nova fase. O promotor do Meio Ambiente Marcos Destefenni convocou os advogados dos proprietários para uma audiência e disse que eles se mostraram dispostos a iniciar as obras. "Já se passaram 20 anos. Quero o início imediato da reconstrução da casa. Vou trabalhar para que comece este ano", diz o promotor.

Desde os anos 80, o início das obras chegou a ser anunciado algumas vezes.

Nunca saiu. A ação número 1.500/97, movida pelo MPE, corre na 35.ª Vara da Justiça Civil de São Paulo.

Os restos da casa bandeirista do Itaim-Bibi estão em um terreno de 13 mil metros quadrados com faces para a Faria Lima, Ruas Horácio Lafer, Aspácia e Iguatemi. Incorporadores imobiliários dizem que se trata do lote mais nobre da região. O preço do m2 pode variar de R$ 5 mil a R$ 9 mil. Ou seja, o terreno pode alcançar R$ 117 milhões no mercado.

Edifícios - Um projeto desenvolvido pelo arquiteto Júlio Neves, em 1999, prevê a construção de dois edifícios comerciais e a restauração da casa - que se transformaria em um centro cultural. O projeto recebeu, no fim dos anos 90, a aprovação do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) e do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH). Mas também não saiu do papel.

"Vai ficando cada vez mais complicado", afirmou Helena, durante uma visita ao local. "As raízes estão entrando na taipa e arrebentando tudo. Isso é acabar com a história." Há árvores nascendo entre as ruínas, plantas incrustadas nas paredes e o mato, em alguns pontos, passa de um metro.

Em 1999, Helena apresentou um plano de obras de emergência que previa a construção de uma cobertura metálica sobre a casa, até que fosse restaurada.

"Ainda é possível reconstruir com os dados que nós temos, mas a Justiça precisa ser mais rápida ou, então, não haverá mais vestígios."

A casa foi sede do velho Sítio Itaim (que, em tupi, significa Rio das Pedras ou Pedra d'Água), uma extensa propriedade que deu origem ao bairro (Veja abaixo). Algumas ruas da região remetem à família do general Couto de Magalhães, um de seus mais ilustres moradores. "A casa é a ponta da raiz do bairro", sintetiza Helena.

Há apenas outras seis residências bandeiristas em São Paulo. Todas sob os cuidados da Secretaria Municipal de Cultura. São elas: a Casa Bandeirista (Butantã), a Casa Sertanista (Caxingui), a Casa do Tatuapé, as do Sítio da Ressaca (Jabaquara) e do Sítio Morrinhos e as ruínas do Sítio Mirim (Ermelino Matarazzo).

Difícil é encontrar um único culpado por tanto descaso. Para o presidente do Condephaat, José Roberto Melhem, a explicação é simples. "Se não foi pelas mãos do dono, ele, pelo menos, colaborou com a omissão. O proprietário tem a responsabilidade de zelar pela casa", diz.

Burocracia - Nos dados que constam do processo movido pelo MPE para a execução da obra, a Bela Vista atribuiu o atraso, durante anos, à falta de um projeto de restauro - que foi prometido no início da década de 80 pelo Condephaat. Mais tarde, passou a culpar a burocracia para a liberação das obras.

O discurso hoje é outro. Um dos advogados da Bela Vista, Marcelo Rocha, disse que a intenção da empresa é restaurar o imóvel. "Queremos superar toda essa fase de discussão sobre o modo de fazer o restauro". Ele não deu prazos para o início das obras. "A gente viu a casa derreter. O projeto já devia estar sendo executado", diz a diretora da Divisão de Preservação do DPH, Cássia Magaldi. "Quanto mais tempo demora, mais a casa se perde. É muita falta de amor à cultura paulistana e brasileira."





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